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Maria Célia Moura Santos

Seminário de 8 e 9 de Abril 2005


Textos de apoio para o Seminário de 2004

 

OS MUSEUS E A BUSCA DE NOVOS HORIZONTES
Texto apresentado na II Semana de Museus da Universidade de São Paulo, realizado no período de 30 de agosto a 03 de setembro de 1999

PROCESSO MUSEOLÓGICO: critérios de exclusão
IVFórum de Profissionais de Reservas Técnicas de Museus, Salvador-BA, Novembro de 2002, organizado pelos Conselho Federal de Museologia – COFEM e Conselho Regional de Museologia, 1a. Região – COREM-BA.

 

Outros textos

Reflexões museológicas: caminhos de vida

Maria Célia Teixeira Moura Santos

Cadernos de Sociomuseologia Nº18- ULHT, Lisboa,2002

 

Apresentação

 

Capitulo I

Entrevista ao Prof. Mário de Souza Chagas 

Entrevista concedida em 1998

Capitulo II

MUSEU: centro de educação comunitária ou contribuição ao ensino formal

Texto apresentado no I Simpósio sobre Museologia da Universidade Federal de Minas Gerais, realizado em Belo Horizonte, no período de 19 a 21 de março de 1997, sob o patrocínio do Museu de Ciências Morfológicas

Capitulo III

Processos museolõgicos: critérios de exclusão

Texto apresentado na II Semana de Museus da Universidade de São Paulo, realizado no período de 30 de Agosto a 03 de Setembro de 1999

Capitulo IV

Reflexões sobre a nova museologia

Texto preparado para seminário no Curso de Especialização em Museologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo-MAE/USP, realizado em  setembro de 1999

Capitulo V

MUSEU: centro de educação comunitária ou contribuição ao ensino formal

Texto apresentado no I Simpósio sobre Museologia da Universidade Federal de Minas Gerais, realizado em Belo Horizonte, no período de 19 a 21 de março de 1997, sob o patrocínio do Museu de Ciências Morfológicas.

Capitulo VI

A Formação do Museólogo e o seu Campo de Atuação

Texto apresentado no XV Congresso Brasileiro da Associação Brasileira de Museologia, realizado no Rio de Janeiro, no período de 22 a 26 de novembro de 1999.

 

 

 

 

APRESENTAÇÃO

 

Acredito que o processo de construção do conhecimento é o resultado de um amadurecimento constante, incentivado pelos caminhos da vida, profissional, afetivo, e social, que nos impulsionam a pensar e a  refletir sobre as nossas ações, nos diversos contextos em que estamos atuando, nos conduzindo a novas produções, e, consequentemente, à busca de novos rumos. 

 

“Reflexões Museológicas: caminhos de vida” é, pois,  mais uma etapa do meu caminhar, nos últimos três anos, resultado dos diversos projetos, nos quais tenho atuado, e da minha participação em congressos, cursos e seminários, que têm me motivado, em cada momento, a pensar a Museologia e os seus processos, e a avaliar a aplicação das ações Museológicas em diferentes contextos e em interação com os diversos segmentos da sociedade, bem como a repensar  formação do profissional museólogo e o seu campo de atuação.

 

Considero, portanto, essa minha produção como resultado da minha vivência, da experiência acumulada ao longo dos anos. Assim, fiz questão de abrir esta publicação, com a entrevista concedida ao colega Mário Chagas, para que o leitor possa, a partir das informações sobre o meu caminhar na vida profissional, compreender melhor os capítulos seguintes. Neles, poderão encontrar, talvez, alguns enfoques que podem parecer repetitivos, mas os  justifico, devido às necessidades apresentadas nos diversos contextos em que foram abordadas; por isso, julguei necessário mantê-los. 

 

A Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, por meio do Centro de Estudos de Sociomuseologia, tem aberto, nos últimos anos, espaço para publicação de vários trabalhos de minha autoria, e de outros colegas brasileiros. Acho que esta iniciativa tem permitido a divulgação dos nossos trabalho, não só em Portugal como no Brasil, estreitando os laços entre os profissionais portugueses e brasileiros, em um intercâmbio salutar e necessário ao desenvolvimento da produção do conhecimento, na Museologia, nos dois países. Com esta publicação estamos dando continuidade a esse trabalho de troca e de crescimento, e esperamos que o mesmo tenha continuidade, ao longo dos anos, com o crescimento e o aprimoramento constantes do Mestrado em Museologia da Lusófona.

 

 

                                                               Salvador-BA, Março de 2000.

 Texto apresentado no XV Congresso Brasileiro da Associação Brasileira de Museologia, realizado no Rio de Janeiro, no período de 22 a 26 de novembro de 1999.

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CAPÍTULO I

 ENTREVISTA AO PROF. MÁRIO DE SOUZA CHAGAS[1]

 

1 – Célia ( penso que você gosta de ser chamada assim), como se deu a sua aproximação com o campo de atuação da Museologia?[2]

 Gosto de ser chamada Célia. O Maria complementa, é mais profissional. Em geral, os colegas cariocas costumam chamar-me Maria Célia . A propósito, você é o carioca mais nordestino que já conheci -o Mário do repente, da prosa, do abraço por inteiro, da criatividade, da resistência.

 

A sua proposta de entrevista fez-me reler o meu memorial, escrito para o Doutorado em Educação, quando do meu exame de qualificação, do qual você possui uma cópia. Naquela oportunidade, pela primeira vez, parei para refletir sobre os caminhos percorridos. E agora Mário, você me estimula a repensar novamente as minha idas e vindas, a rica experiência de viver: profissão, emoção, amor, paixão, construção, reconstrução, decepção, tudo isso, numa imensa teia de relações, denominada vida. Acho que sou uma baiana “boa de prosa”, devo-me policiar, ser objetiva na entrevista, embora considere ser um pouco difícil, quando se tratam de Maria Célia e Mário Chagas. Vamos tentar? Falemos, portanto, do meu ingresso na Museologia:

 

Foi por acaso. Em 1970, vindo do interior para Salvador, concorri a uma vaga nos cursos de História, como primeira opção, e Ciências Sociais, em segunda opção, no vestibular da Universidade Federal da Bahia. Não fui aprovada na primeira lista. Algum tempo após fui convocada para matricular-me no Curso de Museologia, recém-criado na UFBA, para o qual não haviam sido oferecidas vagas no concurso vestibular, por não estar ainda devidamente estruturado, no momento do concurso. Compareci no dia determinado para a matrícula. Naquele dia conheci o Prof. Valentim Calderon, primeiro Coordenador do Curso e seu idealizador, e que, posteriormente, viria a ser  um grande incentivador da minha vida profissional. Ainda me lembro do seu sotaque espanhol, no momento da matrícula, explicando-me o currículo e algumas atividades a serem desenvolvidas no Curso de Museologia: “vais trabalhar com objetos antigos, estudar história, fazer muitas viagens”. Não parece premonição? Acreditei no Curso, fiz a matrícula e até hoje estou imersa, por inteiro, no Mundo da Museologia. A partir dos objetos antigos compreendi que o novo também é museável, que a História é vida, é passado e presente e as viagens, pelo País e fora dele, são uma consequência  do meu crescimento com a Museologia, resultado da porta aberta pelo Prof. Valentin Calderon. Como é grande a responsabilidade de um profissional em abrir ou fechar portas!

 

 

2 – Qual a importância e qual o papel do Prof. Valentin Calderon em sua formação profissional?

 

 

Como você já deve ter percebido na resposta anterior, o Prof. Valentin Calderon desempenhou um papel muito significativo em minha formação profissional. Destaco, não só o incentivo inicial, vindo com a criação do Curso da qual já falei, mas sobretudo, a abertura para a realização de um aprendizado constante,  na vivência do cotidiano do Museu de Arte Sacra da Universidade Federal da Bahia, quando era o seu diretor, como também a participação em suas pesquisas no campo da História da Arte, com destaque para a pintura e para a talha das Igrejas de Salvador e do recôncavo baiano. Ainda como estudante, no Curso de Museologia, fiz vários trabalhos práticos no Museu de Arte Sacra, começando, assim, a profundar o meu relacionamento com o Prof. Calderon. Logo após a conclusão do Curso, fui convidada, por ele, para ensinar no Curso de Museologia, inicialmente como Professor “Colaborador”, para posteriormente,  ser contratada como Professor Auxiliar de ensino, em regime de 20h, após ter prestado concurso. Ministrava aulas em um turno e no outro trabalhava como voluntária no Museu de Arte Sacra. Devo ter atuado no Museu de Arte Sacra, como voluntária e como Professora do Curso de Museologia, com carga horária naquela instituição, durante 10 anos, aproximadamente. Ali tive a felicidade de, junto com outras duas colegas de turma, ser livre para criar, inovar, vivenciar os aspectos administrativos de um dos maiores museus da cidade do Salvador, dialogando com um diretor que confiava em profissionais recém-graduados, explorando todo o nosso potencial, com orientação segura, sem, contudo, deixar que os nossos sonhos e arroubos ferissem a imagem da instituição. Certa feita, ele passou uma semana ausente, participando de um congresso. Quando do seu retorno, havíamos realizado uma proposta de construção de um auditório e de salas para trabalhos com estudantes na área do jardim do Museu, junto a um galpão existente. Ao apresentarmos, cheias de entusiasmo, as plantas já traçadas, e as propostas para conseguirmos a verba que iria viabilizar o empreendimento, ele nos olhou e, com seu sotaque espanhol, enfatizou: “Esqueceram que esta área é tombada pelo IPHAN e que não se pode construir aqui? Ainda hoje guardo aquela proposta comigo.

 

Absorvido em suas pesquisas e com a administração do Museu, o Professor Valentin Calderon não tinha muito tempo para dedicar às atividades acadêmicas do Curso de Museologia, solicitando sempre a minha colaboração. Foi assim que iniciei o meu relacionamento com os diversos setores da Reitoria da UFBA e comecei as minhas incursões no Mundo Acadêmico do Curso de  Museologia.

 

Por intermédio do Professor Calderon, foi firmado um convênio entre a Universidade Federal da Bahia e o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, com o objetivo de enviar museólogos para realizar estágio de aperfeiçoamento em museus americanos, com prioridade aos Museus de Ciência e Tecnologia, pois pretendia-se instalar em Salvador um museu dessa categoria. Fui indicada, juntamente com outra colega, para realizar o referido estágio, tendo permanecido, nos Estados Unidos, durante três meses, observando o funcionamento dos seguintes Museus:

 

 

 

·          The Franklin Institute–Philadelphia-PA;

·          The Carnegie Museum of Natural History-Pistsburg-PA;

·          The Henry Francis du Pont Winterthur Museum - Delaware.

·          The Museum of History and Tecnology-Smithsonian Institution-Washington, D.C.

 

Ao retornar, elaboramos relatório das atividades desenvolvidas, trouxemos vasta documentação em slides, que passou a ser utilizada como material didático no Curso de Museologia. Posteriormente, participei, como representante do Curso de Museologia da comissão para implantação do Museu de Ciência e Tecnologia, na Cidade do Salvador. 

 

Com o Prof. Calderon, vivenciei a relação entre teoria e prática, o que me proporcionou o suporte necessário para, mais tarde, poder separar e ao mesmo tempo integrar, Museologia e Museu e Museu e Museologia. Do tempo convivido com o Professor Calderon, guardo a confiança, a amizade, o respeito, o apoio e o incentivo à minha capacitação profissional. Tempo de Crescimento!

 

 

3 – Nos Anos 70 o Curso de Museologia da UFBA passou por uma crise bastante séria. Quais foram os motivos dessa crise e como ela foi superada?

 

 

Quando assumi pela primeira vez a coordenação do Curso de Museologia, este não era reconhecido pelo Ministério da Educação. Preparei o processo de reconhecimento, preenchendo inúmeros formulários, um para cada professor dos diversos Departamentos que ministravam aulas para o Curso de Museologia, revendo a carga horária e reestruturando o currículo, pois este não estava de acordo com o parecer do MEC. Foi uma batalha de idas e vindas que culminou com a vinda da comissão designada pelo Conselho Federal de Educação e com o reconhecimento do Curso. Vibrei muito,   essa realização e com a sensação de missão cumprida, apesar de todas as dificuldades encontradas. Houve dias de eu sair chorando da Superintendência Acadêmica, tais eram as dificuldades e a burocracia.

 

O Curso, reconhecido, teve  melhora da credibilidade na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas e na Reitoria. Era hora de continuar lutando, aumentar o corpo docente. Éramos três professores ministrando as disciplinas específicas. O que acontece nesse momento? A Superintendência Acadêmica realiza uma pesquisa e diz ter chegado à conclusão que não havia mercado de trabalho para  museólogo em Salvador e resolve retirar o Curso do concurso vestibular. Era inacreditável!... Tínhamos que lutar. Com a participação dos estudantes, fizemos uma campanha pela imprensa, mobilizamos políticos, houve pronunciamento na Câmara Federal, conseguimos adesões de intelectuais e de outros segmentos da sociedade. Vitória!... O Curso volta ao vestibular, e, desse movimento, que foi capaz de mobilizar estudantes e profissionais já graduados, surgiu a Associação de Museólogos da Bahia. Momento de crescimento e de grande euforia.

 

 

4 – Você trabalhou no Departamento de Educação do Museu de Arte Sacra da Bahia e desenvolveu, posteriormente, dissertação de Mestrado sobre o tema Museu, Escola e Comunidade-uma integração necessária. De onde vem seu interesse pelo processo de educação em museus?

 

 

Acho que vem da minha época de “normalista”- assim eram chamadas as alunas do Curso Normal, (atual curso de Magistério de 1o  Grau). Lembra-se da música interpretada por  Nelson Gonçalves?

 

 

Vestida de azul e Branco, trazendo um sorriso franco, num rostinho encantador, minha normalista linda, rapidamente conquista, meu coração sofredor”...

 

Assim, o interesse pela educação veio bem antes do museu e da museologia. Ser professora foi realmente uma vocação. Ainda hoje, trabalhar em sala de aula é uma terapia. Esclareço que  sala de aula, hoje, para mim, tem um conceito muito amplo.

 

Ainda como estudante, no Curso de Museologia, preocupei-me bastante com a utilização de nossos museus pelos diversos segmentos da sociedade. Considerava um desperdício a aplicação de verbas em instituições que não passavam de depósitos de objetos. Tinha um ideal: "Tornar os Museus úteis à sociedade". E visualizava a viabilização desse ideal por meio da relação museu-escola. Desde o meu ingresso no Curso de Museologia, como professora, dediquei-me às atividades relacionadas com a ação educativa dos museus. De 74 a 79, realizei vários programas com alunos e professores das redes estadual e particular de ensino da cidade do Salvador, no Museu de Arte Sacra da UFBA. Àquela altura, sentia a necessidade de aprofundar as questões relacionadas com a utilização dos museus, como recurso educativo, e me inscrevi na seleção do Mestrado em Educação, tendo sido aprovada em 1979. A minha dissertação de mestrado teve como título: “Museu-Escola: uma experiência de integração” . No meu primeiro livro, que teve o patrocínio do Ministério da Cultura-Sistema Nacional de Museus, dedico um capítulo à dissertação do Mestrado.

 

Devo registrar que, antes de fazer a seleção em Salvador, inscrevi-me na CAPES, para fazer um Mestrado de Educação em Museus, oferecido pela Georoge Washington University-Washginton D.C. Fui aprovada, mas optei por realizar o curso em Salvador.

 

Hoje, considero a ação museológica como uma ação educativa e de interação, que produz conhecimento e busca a construção de uma nova prática social. Portanto, a ação museológica é, por mim compreendida, uma ação educativa e de comunicação.

 

 

 

5 – Sabemos que você defendeu em 1996 a sua tese de doutoramento. Como foi esse processo? Que contribuições você compreende que essa tese pode trazer para a Museologia Brasileira?

 

 

Existiu um intervalo grande entre o mestrado e o doutorado, o que me permitiu um amadurecimento maior, com base nas reflexões teóricas. Houve um bom avanço em relação à construção do conhecimento na Museologia, nesse período, também proporcionado pela  vivência em vários projetos e nas atividades como docente do Curso de Museologia. Talvez, por isso o doutorado tenha sido um processo tão rico, se não vejamos:

 

Em primeiro lugar, esse caminhar de construção e reconstrução foi e está sendo, para mim (continuo atuando no Museu-Didático Comunitário de Itapuã, originado do meu objeto de estudo do doutorado), uma fonte infinita de conhecimento e crescimento pessoal. Ressalto que não quis ser “objetiva” almejando uma neutralidade absoluta que apagasse as marcas da minha implicação no meu objeto de estudo. Estive, todo o tempo, imersa nesse processo, na totalidade; tem sido, realmente, um encontro de ação, pensamento, desejo, prazer, paixão e sonho.

 

A escolha do tema está relacionada com a minha história de vida profissional, uma vez que temos atuado, como professora universitária, de forma integrada e participativa com professores e alunos de 1º e 2º graus, conforme explicitado anteriormente. Acredito que o nosso compromisso com a sociedade deve-se dar no plano do concreto, assumindo que somos capazes de agir e refletir-transformar a realidade. Qual o compromisso da Universidade com as muitas realidades de um país da América Latina onde imperam a miséria, o cólera, a violência, o analfabetismo? Esta tem sido uma preocupação constante quando atuamos como educadora, museóloga e pesquisadora. Por isso, optamos, mais uma vez, por sair do espaço fechado da universidade, evitando construir uma tese que fosse destinada somente à academia. Assumimos que há possibilidade de produzir conhecimento em todos os níveis de escolarização e que este conhecimento pode ser construído em uma determinada ação de caráter social, reconhecendo o papel ativo dos observadores na situação pesquisada e dos membros representativos dessa situação.

 

Escolhemos, para desenvolver a ação proposta, o Colégio Estadual Governador Lomanto Júnior, situado na Rua Prof. Souza Brito, s/no, na Estrada do Farol, em Itapuã, em Salvador-BA, por possuir um Curso de Magistério. Pretendíamos, a partir das atividades que seriam planejadas e desenvolvidas em sala de aula com professores, alunos e funcionários do referido curso, envolver professores e alunos do 1oe 2o Graus, bem como membros da comunidade local. A Escola possuía, à época, 2.800 alunos matriculados

 

A escolha do Bairro de Itapuã como área-objeto de estudo deveu-se  à necessidade de realizar um estudo sistemático, a partir da escola, envolvendo a comunidade local e buscando, através das ações planejadas com os diversos segmentos envolvidos, a compreensão e a reflexão sobre o seu patrimônio cultural, na dinâmica do processo social.

 

Acreditamos que o patrimônio cultural de qualquer bairro pode ser utilizado para análise e compreensão da realidade do presente e como referencial para construção e reconstrução da práxis pedagógica. Entretanto, confessamos que nos deixamos envolver, também, pelo bucólico, poético, romântico, que é Itapuã, cantada em prosa e verso:

 

... É bom passar uma tarde em Itapuã,

    Ao sol que arde em Itapuã,

    Ouvir o mar de Itapuã,

    Falar de amor Itapuã...

 

 

Nesse sentido, a proposta de um museu didático-comunitário, no Bairro de Itapuã, procura abordar o bairro como forma, como lugar de ação de forças sociais e como imagem. O objeto do museu está sendo o que é o bairro e a sua relação com o contexto da Cidade do Salvador, enquanto fenômeno que a análise científica está recuperando e  interpretando; portanto, não estão sendo excluídos a cidade de hoje e o bairro de hoje com suas contradições, pois ambos só poderão ser compreendidos dentro de uma perspectiva histórica.

 

Quanto ao acervo que está sendo musealizado, podemos identificá-lo como acervo institucional e como acervo operacional. O acervo institucional está sendo formado, gradualmente, levando-se em consideração os contextos sociais e históricos, que as peças documentam, levantando-se as demais referências desses contextos, considerando-se valores modestos, anônimos, sem relevância estética, ou de ineditismo. Está sendo considerada de vital importância, nesse sentido, toda a produção cultural que se refira ao universo do cotidiano e do trabalho. Ao acervo institucional estão sendo, também, incluídos materiais arquivístico e iconográfico, fotografias, plantas, maquetes, depoimentos e testemunhos de várias naturezas, bem como toda a documentação urbana disponível. Quanto ao acervo operacional, são considerados: a paisagem, estruturas, monumentos, equipamentos, áreas e objetos sensíveis do tecido urbano, socialmente apropriados, percebidos não só na sua carga documental, como também na sua capacidade de alimentar as representações urbanas.

 

Enfim, mesmo inserida no contexto de uma crise que atinge a todos os segmentos da sociedade brasileira e, em especial, nas áreas da educação e a cultura, aceitei o desafio de acreditar que sou sujeito da História e que juntos somos capazes de deflagrar um processo de crescimento conjunto, considerando o patrimônio cultural como um referencial para o exercício da cidadania e para o desenvolvimento social, por meio do processo educativo.

 

Acho que posso identificar algumas contribuições dessa construção conjunta, para a Museologia Brasileira, a saber:

 

·          Houve alguns avanços em relação à compreensão do processo museológico e sua relação com o patrimônio Cultural e com a Instituição Museu. O processo museológico antecedeu a existência objetiva do museu e não se originou a partir de uma coleção, de uma instituição, como normalmente se concebe, mas teve, na pesquisa, o suporte essencial para o seu desenvolvimento. Do processo de construção do conhecimento é que está sendo realizada a musealização, processada a partir da prática social (na escola e no bairro), na sua dinâmica real, ou seja, no processo social, em interação, considerando-se as suas dimensões de tempo e espaço, abordando a cultura de forma integrada às dimensões do cotidiano. Nesse sentido, pude definir o fato museal, como a qualificação da cultura, em um processo interativo de ações de pesquisa, preservação e comunicação, objetivando a construção de uma nova prática social;

 

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